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Peter F. Drucker - Sob um ponto de vista pessoal
Extraído do livro "Contrate preguiçosos" de Eduardo Cupaiolo


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A Edição Especial Número 50 de nossa newsletter é dedicada à vida e obra da personagem que mais profundo impacto causou em minha maneira de entender e atuar no mundo corporativo: Peter Ferdinand Drucker, falecido em 11 de novembro de 2005, apenas uma semana antes de completar 96 anos.

Decidi não concorrer com os milhares de sites da internet que podem apresentar ao interessado uma infinita gama de detalhes biográficos, citações suas e a seu respeito Prefiro acreditar que a melhor forma de eu homenageá-lo é registrar minhas próprias impressões a seu respeito, ou ainda, suas próprias impressões em mim.

Drucker era denso . Quem estivesse acostumado com soluções abracadabra, com fórmulas mágicas que incluem sempre um número e uma promessa como os 7 Passos para o Sucesso, ou com livros cujo maior valor esteja no título chamativo do que no conteúdo, iria se frustrar ao não encontrar em seus textos um gráfico, uma figura distribuindo dados em 4 quadrantes, ou a proposta de algum método instantâneo. Este não era o jeito de Drucker.

Longe disso, seus textos sempre tem uma análise profunda das questões. Basal. Muito mais comum era vê-lo fazendo referências históricas, retrocedendo no tempo centenas de anos e depois ir avançando, era após era, etapa por etapa, didaticamente, até nos posicionar no mesmo nível de compreensão que ele tivesse do tema até o momento. Drucker nos permitia pensar e compreender como ele.

Oferecia ao seu leitor a clareza do entendimento e a segurança de uma análise tão profunda quanto ampla de um momento, demonstrando como ele estava inserido em toda a história da civilização.

Drucker era simples e claro . Ao menos uma coisa aprendemos com os gênios incompreensíveis, aqueles que falam muito, mas não nos esclarecem em nada: saber explicar coisas complicadas de forma complicada é bem fácil. Basta deixar para o outro a responsabilidade e a culpa de não compreender. Drucker, ao contrário, surpreendia pela facilidade de explicar de forma simples, assuntos altamente complexos. Jamais conheci alguém que não tenha compreendido um texto seu.

Lembro-me do susto que levei ao iniciar a leitura de um artigo seu, tratando sobre a então recente e endeusada (e já estourada) “Bolha da Internet”. O texto começava com a criação de peixes em cativeiro, e, pela primeira vez senti o receio de que meu querido mestre estivesse começando a caducar. Ledo engano. Em um de seus mais admiráveis exemplos de erudição e didática, Drucker desvendou de forma muito simples e em poucas páginas, todo o intricado enredo da chamada Nova Economia.

Assim era Drucker. Ele não escrevia para se tornar célebre nem admirado. Escrevia para que qualquer pessoa entendesse. Não por acaso, isto o fez célebre e admirado.

Drucker não era um guru . Não no sentido que se dá normalmente ao termo. Chamado até de guru dos gurus, ele não fazia adivinhações. Ele apenas interpretava corretamente qual o trajeto futuro do trem pelo acompanhamento do desenho dos trilhos e pelo conhecimento de muitos outros trens e muitos outros trilhos semelhantes.

Quando se referia ao futuro, seu objetivo não era fazer previsões, era apenas esclarecer e informar que seguindo as práticas em curso, uma organização e a sociedade como um todo, inevitavelmente produziriam determinados resultados, fossem eles positivos ou negativos, e fatalmente encontrariam determinado destino.

O que se deve reverenciar não é sua bola de cristal, mas sua capacidade de analisar com sabedoria e discernimento dados e fatos, indícios claros, para sua mente prodigiosa, de movimentos sócio-culturais que lhe permitiam antecipar os próximos acontecimentos, ainda que, surpreendentemente, com até dezenas de anos antes que acontecessem.

Drucker unia conhecimento e prática. Apesar ser considerado por um de seus biógrafos, o primeiro consultor empresarial da era moderna, e tendo realmente atuado como tal nas mais importantes organizações do planeta, ele se definia como um escritor. Às suas atividades como consultor chamava apenas de seu laboratório.

Neste sentido é um exemplo para todos aqueles que se tornam famosos escrevendo teses maravilhosas e dando palestras milionárias, mas que jamais experimentaram na prática a validade de seus pressupostos teóricos, e para consultores e gestores repletos de experiências, mas que não se dedicam como deveriam a se aprofundar e alargar seus conhecimentos antes de tomarem decisões, precipitadas e infelizes.

Drucker não parou de aprender . A erudição de Drucker, se assim pode dizer, era “hereditária”. Mas não foi apenas a riqueza cultural de seus pais e daqueles que freqüentaram sua casa na juventude que o fizeram conquistar sua prodigiosa e vasta base de conhecimentos.

Ele nunca parou de buscar oportunidades de aprender e jamais deu sinais de estar satisfeito com o que já sabia. Pelo contrário. Além do contato com clientes e alunos, o que lhe franqueava acesso às informações, direto de suas personagens principais, enriquecia sua mente com a leitura. Lia tudo. Lia muito.

Drucker lia até Drucker. Lia a si mesmo para ter certeza de onde havia cometido equívocos e como poderia corrigi-los ou esclarecê-los em uma nova obra. É surpreendente notar quantas referências bibliográficas a si mesmo são encontradas até num curto artigo seu.

Peter Ducker era Peter Drucker . Uma revista de negócios sempre apresenta no final do texto o autor de seus artigos com suas qualificações profissionais: Fulano de Tal é Professor de Tal Universidade, Sicrano de Souza é Presidente da Souza e Souza, e por aí vai. Não pude deixar de rir e concordar com seu editor quando li a seguinte apresentação dele no final de um artigo seu: Peter Drucker é Peter Drucker.

Para alguém que, ou dispensa qualquer apresentação, ou para quem qualquer apresentação é muito inferior a quem de fato é, Peter Drucker tinha todas as condições de se tornar exigente, soberbo, inacessível, caro, distante de todos os mortais, exceto seus mais abastados clientes.

Nada mais longe da realidade. Drucker nunca teve dificuldade de admitir que errara em uma análise. Era seu crítico mais determinado.

Quanto a clientes, nas últimas décadas, decepcionado com os caminhos das organizações tradicionais, passou a dedicar fatia expressiva do seu tempo e genialidade gratuitamente às organizações sem fins lucrativos, chegando ao ponto de declarar que a Girls Scouts, presidida por Frances Husselbein, era a organização mais bem administrada da América .

Era admirado pela facilidade de acesso, pessoal ou remota (recebia diariamente centenas de faxes e mensagens), pela capacidade de lembrar detalhes pessoais de seus ex-alunos, de se colocar sempre em posição discreta e jamais demonstrar que era mais importante ou deixar de tratar e até abraçar carinhosamente seus interlocutores.

A mais impressionante de todas suas qualidades foi ser humilde.

Peter Drucker não se deixou inebriar pelo fato de ser Peter Drucker. Cuidou apenas de ser humano.

 

Peter Drucker sob um ponto de vista pessoal.

A história registrará Peter Drucker como quem, nos séculos XX e XXI, melhor compreendeu e explicou o papel das organizações na sociedade e das pessoas nas organizações. As referências acadêmicas o eternizarão como o Pai da Administração Moderna.

Para mim, e milhares como eu, que mesmo não tendo tido o prazer de conhecê-lo pessoalmente, foram enriquecidos pelas longas horas de uma conversa quase real através de seus livros e artigos, será lembrado de maneira muito, muito diferente.

Primeiro, como o autor que tão logo tomei conhecimento, tornou-se meu favorito. Não me recordo de sequer uma ocasião em que ao ler qualquer um de seus textos não tenha ficado assombrado com a sua capacidade de desafiar preceitos, esclarecer questões complexas e ensinar com profundidade. Depois, como mentor de meu desenvolvimento pessoal e profissional. Drucker era alguém a se ter como exemplo.

E, finalmente, como alguém, que sem qualquer pretensão a respeito, conquistou um tipo de admiração muito especial que se nutre apenas por pessoas muito íntimas e queridas.

Drucker conquistou meu coração enquanto me levava através do entendimento da complexidade do mundo corporativo e da sociedade moderna, da mesma forma gentil que um avô amorosamente conduz seu neto pela mão para comprar algodão doce na praça.

Lê-lo foi sempre como estar acompanhado desta figura querida numa divertida e emocionante experiência de aprender. Sua erudição, sua didática e este seu jeito familiar, faz com que hoje eu me sinta emocional e intelectualmente órfão. Sinto o receio de não ter mais onde esclarecer minhas dúvidas, mas reconfortado pela idéia de que há ainda muita sabedoria nos seus textos a ser explorada.

Resta-me, por fim, a certeza de que poderei reencontrá-lo sempre na mesma forma que o conheci: através da leitura e releitura de seus admiráveis textos.

Até daqui a pouco, Professor. Até daqui a pouco.


Eduardo Cupaiolo é palestrante, escritor e Presidente da PeopleSide Human and Organizational Development

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