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Você sabe com quem está falando ?

E será que aguém sabe ?

Eduardo Cupaiolo - Julho, 2008


A estória é mais ou menos assim.
Alguém liga às 2 da manhã para o quartel. Um dos sentinelas de plantão atende o telefone.

 

– Boa noite.

– Boa noite.

– Chame o Capitão Miranda! Quero falar com ele ime-diatamente – ordena a voz do outro lado da linha.

– Às duas da manhã? De jeito nenhum – retruca o sentinela desconfiando ser um trote

– Às duas, às três, o que me importa? Chame já o Capitão Miranda! – insiste a voz já aos berros.

– Que isso, Seo Zé, tá nervosinho, tá?

– Seo Zé ?... Seoooo Zééééé ? Por acaso o senhor sabe com QUEM está falando?

– Não, na-na verdade não-não tenho, não-não senhor ...! – começa a gaguejar o sentinela já reconhecendo a voz do outro lado da linha.

– Pois bem. É o General Armando Lopes de Almeida! General Armando Lopes de Almeida! – ouviu seu insubordinado ?!

– Ge-ge-ge-neral! Gene-gene-nene-gegenene-neral é-é-é o senhor? E-e-e o senhor ? O senhor sabe com QUEM está falando?

– Não. É lógico que não!

– Graças a Deus! Graças a Deus ! – suspira aliviado o sentinela enquanto num golpe rápido desliga telefone.

 

Sinceramente acredito não ser apenas o General Armando Lopes de Almeida quem não sabe com quem estava falando. Acho mesmo, ser essa dificuldade uma epidemia do vírus da indiferença de, se não todas, quase todas as nossas relações.

 

Se duvida, permita-se um teste bem simples. Responda rápido: com quantas pessoas você se relacionou hoje?

 

Chegou num número?!. Ok. Sugiro refazer o cálculo. Sugiro avaliar se não errou em muito. Se não pensou em 10 mas foram 20. Se não pensou em 20 mas foram 40, 50 ou 120. Talvez o erro de cálculo seja ainda maior. Quem sabe de 9 para 1. De cada 10, lembra apenas de 1 se esqueceu de 9.

 

- Nove! Mas que nove ?!

 

Os nove com os quais se relacionou nas últimas 24 horas, mas nem notou.

 

Aqueles com quem pegou o elevador, cruzou no corredor e na portaria do prédio, no ônibus, no metrô, no táxi, na lanchonete, no restaurante, no hospital, no teatro, no guichê do cinema, no caixa do banco, na loja, na garagem do shopping, na porta do supermercado.

 

E também aqueles nas salas de reunião do escritório, naquele curso, na academia, no clube, na piscina, no vestiário, no estádio de futebol, na porta da escola das crianças, no sinal de trânsito. Aqueles na sua sala, na sua cozinha, no seu quarto ou na sua cama de casal.

 

Gente. Ou ainda melhor, quase-gente, que cumprimentou com um aceno de cabeça, um bom dia, deu um oi, acenou, pediu licença, atropelou na catraca ou para pegar o elevador. Alguém para quem pagou a conta, com quem reclamou, de quem recebeu, pra quem perguntou, para quem não respondeu.

 

Pessoas. Pessoas que deveriam ser de carne e osso mas lembram mais o Fred, o manequim melhor amigo do personagem de Will Smith em Eu sou a Lenda. E bem, bem menos importante para você do que a cachorra dele, para ele.

 

Gente. Pessoas. Mas não de verdade. Apenas personagens coadjuvantes do episódio de hoje de sua biografia. Talvez, nem isto. Só figurantes. Lá no fundo da cena compondo a multidão sem rosto. Menos. Sem alma nem fala. Quem sabe, só artifício cenográfico. Mais um móvel, mais um utensílio, um detalhe da paisagem.

 

E não duvide, nas nossas organizações a epidemia já chegou faz tempo. Nós - você e eu - portadores do vírus, as infectamos.

 

Na maioria delas, já não somos indivíduo, no singular. Somos sempre funcionários, colaboradores, associados – no plural, sempre no plural. Se muito, somos parte da área de Marketing, de uma equipe, membros de um projeto.

 

Para nós, de quem compramos, é apenas “fornecedor”. E a quem vendemos, “cliente”. E isto basta. Não precisamos saber quem de fato são, com quem estamos falando. São apenas aqueles-aquilos, gente virtual com utilidade de coisa. São apenas os Andrés da XPTO, os Joãos da ABC, os Pedros da XYZ.

 

São apenas rótulos em cartões de visita. Todos com o logotipo da marca, mas sem rosto, sem gosto, sem cheiro, sem cor, sem alma. Gente que só é gente por que tem sobrenome da empresa, ramal no escritório, endereço de e-mail e CNPJ.

 

Verdade mesmo, é que nem você nem eu, temos a menor idéia com que estamos falando.

 

Não sabemos que a senhorinha que serve o café se chama Elisa. Que tem 2 filhos. Um deles com necessidades especiais. Nem nos interessará saber que o quanto ganha não é nem o suficiente para as suas necessidades básicas, quanto mais das especiais do filho.

 

Não sabemos que o Agenor, o porteiro do prédio, mora na Vila dos Milagres, mas que milagre mesmo é ele ainda estar vivo depois do assalto que sofreu no mês passado. Afinal, problema de segurança quem tem sou mesmo somos nós obrigados a andar de carro blindado.

 

Não sabemos nada – nem o nome – daquela caixa do banco que sempre nos atende. Nem da moça da loja, do atendente da farmácia, do garçom da lanchonete, do dono da padaria.

 

A verdade, a verdade mesmo, é que não sabemos com quem estamos falando. Na era do contato virtual, do callcenter, das relações impessoais, aprendemos a nos livrar do desconforto de saber quem é o outro.

 

Afinal, o outro, sejamos bem sinceros, é apenas quem serve para nos servir. E, infelizmente, é também quem nos perturba o sono, nos atrapalha no trânsito, nos impede que realizar nossos desejos mais mesquinhos. O outro é quem fica na nossa frente na fila, respira nosso oxigênio, rouba nosso tempo, consome nossas energias e os recursos finitos da terra. Afinal, bom mesmo era que não existisse o outro. Nenhum outro.

 

Penso diferente, penso ser desejável aprendermos logo a saber com quem estamos falando.

 

Assim, sairíamos logo de dentro de nós, de nosso ponto de vista, de cima dos saltos, do alto da muralha, de dentro do castelo, de cima do Monte Olímpio, de nossas torres de cristal, de ouro ou de marfim.

 

Quem sabe aí, descubramos surpresos, que aquele cara com quem não sabemos que estivemos falando, é o cara cuja cara aparece todos os dias no espelho do nosso banheiro.


Eduardo Cupaiolo é palestra, escritor e Presidente da PeopleSide Human and Organizational Development

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